quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026
Ferramenta brasileira calcula risco individual de diabetes em 10 anos
Por: Teresa Santos e Ilana Polistchuck
Qual o risco de uma pessoa apresentar diabetes em 10 anos? Uma ferramenta criada por pesquisadores das Universidades Federais do Rio Grande do Sul (UFRGS), do Espírito Santo (UFES) e de Minas Gerais (UFMG) e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) busca responder essa pergunta.
Desenvolvida utilizando dados de 15.105 adultos incluídos no Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (ELSA-Brasil) — pesquisa de coorte multicêntrica que acompanhou funcionários de universidades e instituições de pesquisa de seis estados brasileiros por um período médio de 7,4 anos —, o Brazilian Diabetes Risk Score (BrDMrisc) apresenta ainda propriedades diagnósticas mais favoráveis do que outras estratégias de rastreamento de diabetes, de acordo com um estudo publicado na Revista de Saúde Pública.
A calculadora trabalha a partir de 12 características laboratoriais e clínicas: idade, índice de massa corporal (IMC), circunferência de cintura, hipertensão, etnia, sexo, história familiar de diabetes, glicemia de jejum, glicemia 2h pós-teste oral de tolerância à glicose, hemoglobina glicada, triglicerídeos e colesterol HDL. Mas, apesar do escore ser composto por essas 12 características, não é necessário ter informações de todas elas para fazer o cálculo do risco.
“Temos 27 modelos matemáticos diferentes que permitem que o risco seja estimado com as variáveis que estejam disponíveis para o indivíduo e/ou clínico. Na prática, isso significa que conseguimos estimar o risco em 10 anos tendo em mãos apenas glicemia de jejum, por exemplo, ou apenas dados clínicos”, explica a Dra. Paula Andreghetto Bracco, estatística, biomédica, doutora em epidemiologia, professora da UFRGS primeira autora do estudo.
A versatilidade da ferramenta permite diferentes abordagens de uso. O risco pode ser calculado inicialmente com dados clínicos disponíveis durante a consulta. Se o risco se mostrar elevado, exames laboratoriais podem ser solicitados para refinar a estimativa, combinando os resultados com as características clínicas em um novo cálculo.
Em entrevista ao Medscape, a Dra. Paula afirma que não há um ponto de corte definido para identificar alto risco, mas a ferramenta permite uma comparação entre o risco individual estimado e o risco dos mais de 15 mil participantes do ELSA-Brasil.
Os pesquisadores utilizaram como referência o ponto de corte de 20% de risco em 10 anos, valor próximo ao risco cumulativo observado em pacientes com intolerância à glicose nos grandes ensaios clínicos de prevenção de diabetes, que demonstraram redução de 58% na incidência da doença com intervenções de mudança de estilo de vida.
O BrDMrisc é no site do ELSA-Brasil. No entanto, a Dra. Paula lembra que o grupo ainda está em contato com outras coortes para realizar a validação externa.
Exemplos de uso
O artigo ilustra a versatilidade da ferramenta. No primeiro exemplo apresentado, uma mulher de 44 anos, branca, com IMC de 28 kg/m², circunferência de cintura de 88 cm, com hipertensão mas sem história familiar de diabetes, apresentaria um risco de 11% em 10 anos com base apenas nos dados clínicos. Ao acrescentar o resultado de glicemia de jejum de 113 mg/dL, seu risco seria recalculado para 35%. Assim, baseando-se no ponto de corte de 20% usado no estudo e no risco observado em ensaios clínicos de prevenção, um risco de 35% justificaria intervenção preventiva, seja por mudanças estruturadas de estilo de vida ou farmacológica.
O estudo também mostra como o risco varia continuamente. Para um homem branco de 50 anos com IMC de 28 kg/m², cintura de 100 cm, sem hipertensão ou história familiar, o risco estimado seria de 10% com glicemia de jejum de 100 mg/dL, mas saltaria para 26% com glicemia de 110 mg/dL e para 63% com glicemia de 123 mg/dL.
Outro exemplo demonstra o impacto do IMC no risco. Para um homem branco de 50 anos com cintura de 100 cm, sem hipertensão ou história familiar, o risco em 10 anos variaria de 10% com IMC de 23 kg/m² até 30% com IMC de 40 kg/m².
Vantagens no rastreamento
Atualmente, existem outras estratégias que são usadas para rastreamento do diabetes, entre elas a glicemia de jejum (≥ 100 mg/dL) e o questionário Finnish Diabetes Risk Score (FINDRISC).
Segundo a Dra. Paula, a principal limitação do rastreamento com base em um exame único, como glicemia de jejum, é que qualquer indivíduo acima do ponto de corte é classificado da mesma forma. “Quando adicionamos valores contínuos nos cálculos, permitimos que o risco seja diferente para um paciente com glicemia de jejum de 105 ou de 115 mg/dL, por exemplo”, explica.
Quanto ao questionário FINDRISC, a autora lembra que, apesar de já ter sido traduzido e adaptado para uso na América Latina, ele foi desenvolvido com dados de um país que apresenta diferenças econômicas, sociais e culturais em relação ao Brasil e nenhum estudo reportou uma validação externa de sua eficácia por aqui.
“Nesse sentido, para aplicação no nosso contexto clínico, o BrDMrisc tem uma vantagem considerável por ter sido desenvolvido com dados totalmente brasileiros”, destaca a especialista, lembrando que a amostra do ELSA-Brasil foi composta por diferentes grupos da sociedade brasileira em relação a sexo, idade, etnia e escolaridade, entre outros.
Além disso, ela lembra que o significado de uma glicemia de jejum “positiva” varia significativamente em função dos valores dos demais fatores, por exemplo, do IMC. Segundo o artigo, dependendo das características clínicas, uma pessoa com glicemia de jejum de 100 mg/dL pode ter risco variando entre 6% e 20% em 10 anos. Já com glicemia de 110 mg/dL, esse risco pode variar de 16% a 46%.
A Dra. Paula e seus colaboradores identificaram, por exemplo, que o cálculo pelo BrDMrisc baseado em dados clínicos mais glicemia de jejum, quando comparado com a detecção usando exclusivamente a alteração de glicemia de jejum (≥ 100 mg/dL), identificou uma fração mais gerenciável (20,0% versus 40,6%) da população como de alto risco, sendo que os identificados apresentavam um risco duas vezes maior de ter diabetes (28,5% vs. 17,1%).
Na comparação com o FINDRISC, que identifica apenas 8,4% da população como alto risco, mas detecta somente 31,8% dos casos futuros, o BrDMrisc apresenta melhor equilíbrio: identifica uma fração intermediária da população (20%) como alto risco, mantendo sensibilidade de 63,1% na detecção de casos futuros.
“O uso de um escore, como o FINDRISC, seguido da aplicação do teste laboratorial melhora a interpretação de resultado positivo. No entanto, uma melhor estimativa do risco é obtida juntando todos os fatores disponíveis no cálculo de risco, como feito pelo BrDMrisc”, destaca a autora.
Outra vantagem da nova ferramenta, de acordo com a pesquisadora, é que seu resultado é algo interpretável — o risco de apresentar diabetes em 10 anos. “Saber o resultado positivo no FINDRISC ou a partir de uma glicemia de jejum não fornece esta estimativa de risco”, destaca.
O que pensam outros especialistas
Segundo o Dr. Rodrigo Moreira, endocrinologista e diretor do Departamento de Diabetes Mellitus da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), o BrDMrisc surge como mais uma opção. “É um primeiro estudo que simplesmente testou essa calculadora em uma população. Ela parece funcionar bem e pode nos ajudar a identificar pacientes com maior risco de diabetes.”
No entanto, ele acrescenta que ainda são necessários mais estudos. “Nós usamos a calculadora, identificamos o paciente [de maior risco] e, agora, qual o próximo passo? É uma pergunta que ainda permanece sem resposta.”
“Precisamos de múltiplos estudos que avaliem realmente o impacto dessa ferramenta, principalmente para mudar o prognóstico. Isto é, se eu usar essa ferramenta, identificar os pacientes e tratá-los, isso vai diminuir o risco de diabetes?”, questiona o Dr. Rodrigo.
Segundo ele, essa é uma primeira pesquisa de uma calculadora que pode vir a ser útil no futuro, mas é preciso aguardar mais estudos para aprender a utilizá-la e “entender qual vai ser o impacto dela na nossa prática clínica e na prevenção, principalmente para estabelecer tratamentos que venham a prevenir ou retardar o surgimento do diabetes”.
Teresa Santos é jornalista, bióloga com bacharelado em Genética e mestre em Biodiversidade e Biologia Evolutiva pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Ilana Polistchuck é jornalista, médica, mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), especialista em Clínica Médica pela residência médica do Hospital Federal do Andaraí e em Medicina de Família e Comunidade pela Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade.
Créditos
Imagem principal: Diabetes Andrey Popov/Dreamstime
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