No sul de Goiás, às margens do Parque Nacional da Emas, uma cidade de cerca de 15 mil habitantes vem se tornando um destino atrativo não apenas para admiradores da exuberância da fauna e das paisagens do Cerrado, mas também para um tipo específico de profissional de saúde: o médico de família e comunidade.
Em um país onde a maior parte dos municípios ainda enfrenta dificuldades para atrair e reter médicos de família por longos períodos, Chapadão do Céu (GO) vem trilhando um caminho pouco comum.
A partir de 2023, o município passou por uma reorganização profunda da sua rede de saúde, encabeçada pela secretária de Saúde, Fernanda Barbosa, com apoio do prefeito Vinicius Terin. Na cidade, a Unidade Básica de Saúde (UBS) voltou a ser a porta de entrada do sistema, passando a intermediar o acesso aos especialistas, que até então eram procurados diretamente pelas pessoas.
“A população reagiu com desconfiança no início, e a decisão também enfrentou resistência política local. Era uma mudança de paradigma”, afirma Fernanda. “Tínhamos uma cultura hospitalocêntrica. Isso gerava cuidado fragmentado, consultas e exames duplicados e sobrecarga do sistema, além de alta rotatividade de médicos. O médico da UBS era visto [apenas] como o ‘médico do postinho’.”
Além de médicos especializados em medicina de família e comunidade (MFC), atuam na atenção primária médicos recém-formados e provenientes de programas como o Mais Médicos. A medida garante cobertura assistencial, mas nem sempre assegura o mesmo nível de preparo específico para o trabalho longitudinal na comunidade. “A diferença é que a maioria são médicos generalistas que não têm o preparo da residência, que a gente chama de padrão ouro na formação, pois oferece ferramentas para fazer a abordagem integral não só do cuidado individual, mas também da abordagem das famílias e das comunidades” afirma Dr. Ricardo Heinzelmann, Diretor de Exercício Profissional da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC).
“Um médico de família não vai olhar só o seu pulso que está doendo, ele vê a complexidade do problema, avalia o contexto, analisa se o paciente está trabalhando demais, por exemplo; 90% do trabalho dele é o vínculo com o paciente”, explica Fernanda.
Desafios da implantação
Para conquistar o apoio e a confiança da população, a Secretaria de Saúde do município goiano promoveu audiências públicas, reuniões com vereadores e uma campanha nas redes sociais, chamada Médico da Gente, para apresentar os profissionais da atenção primária e explicar o papel do médico de família. “Não foi [um sucesso] imediato, havia muita pressão do tipo: ‘Eu quero passar com a minha ginecologista’, e isso acabava recaindo sobre os profissionais da ponta. Mas, com o tempo, o vínculo com os médicos de família começou a se construir e a população abraçou a ideia.”
O Dr. Ranier Roffman Oliveira Silva, 31 anos, foi o primeiro dessa leva, contratado pela prefeitura de Chapadão do Céu em 2023. Um dos principais fatores que pesaram na decisão de se mudar para um município afastado dos grandes centros foi a valorização da MFC pela gestão municipal, algo que ele não viu em outros municípios.
Ao finalizar a residência em Anápolis (GO), o Dr. Ranier se deparou com um cenário não muito promissor. “Quando surge um médico com residência em MFC, ou o município não entende o que ele faz ou não vê diferença. Não valorizam mesmo”, relata. As vagas, quando disponíveis, ou não tinham uma remuneração atrativa ou acabavam sendo ocupadas por médicos sem a especialidade.
Em Chapadão do Céu, a percepção foi diferente. “Era uma sexta-feira, no fim da tarde, quando vi o anúncio da vaga em um grupo de médicos de família de Goiás. Entrei em contato com a Fernanda e, na mesma hora, ela já me chamou para conversar”, lembra.
Segundo ele, logo nessa primeira conversa ficou claro que a gestão estava priorizando especialistas e queria profissionais como ele na rede de atendimento. O salário oferecido era cerca de 65% maior que os encontrados em outros municípios onde ele havia buscado trabalho como médico de família e comunidade.
Além disso, o modelo de contratação, embora assinado como pessoa jurídica, incluía benefícios pouco comuns nesse formato, como 30 dias de férias e possibilidade de afastamento remunerado por motivos de saúde. Somava-se a isso a possibilidade de complementar a renda com atividades de ensino, atuando como preceptor por meio de convênios com universidades, e uma organização da rede que dava respaldo técnico e autonomia ao médico de família.
Primeiros resultados
A presença de médicos com formação específica em MFC, como o Dr. Ranier, se tornou uma das peças-chave da reorganização do sistema de saúde da cidade. O acesso direto dos pacientes aos profissionais de outras especialidades foi restringido, e os encaminhamentos passaram a ser feitos somente a partir da atenção primária, quando realmente necessários. No hospital, a implantação do protocolo Manchester ajudou a direcionar os pacientes para o nível de atenção adequado.
Logo os resultados começaram a aparecer. Segundo a Secretaria de Saúde, hoje cerca de 82% das demandas de saúde da população de Chapadão do Céu são resolvidas nas UBS, sem necessidade de encaminhamento para especialistas ou serviços de maior complexidade.
Também mudou a relação entre médicos e pacientes. Com consultas mais longas e focadas no acompanhamento contínuo, o vínculo se fortaleceu. Um dos casos mais significativos para o Dr. Ranier foi uma paciente em cuidados paliativos. Antes, ela recorria com frequência ao hospital. Com o cuidado contínuo da equipe da atenção primária, passou a ser acompanhada em casa, em visitas domiciliares regulares.
“Nós conseguimos transformar a forma como ela vivia esse período, proporcionando mais qualidade de vida. Ela procurava a equipe sempre que precisava, e dava para ver no olhar a gratidão dela. E eu pude acompanhar todo o processo, do início ao fim”, relata. “Na atenção primária, nós não atendemos só uma queixa, um sintoma, uma doença. Nós acompanhamos a pessoa, a família, a história e vemos o impacto do cuidado de verdade. É um trabalho que exige mais envolvimento, mas também é muito mais significativo.”
Hoje, Chapadão do Céu conta com quatro médicos com residência em MFC para uma população de cerca de 15 mil habitantes — proporção três vezes maior que a média nacional.
“O médico que escolhe a MFC geralmente busca vínculo e continuidade. Quando encontra um lugar onde consegue trabalhar nas mesmas condições em que foi formado, ele fica. Até agora não encontramos dificuldade em atrair profissionais, porque, além de termos uma estrutura que favorece a atuação, melhoramos o valor do salário no nosso edital. Então todos que entrevistamos aceitaram a proposta”, avalia Fernanda.
A aposta em médicos com formação específica em MFC não é apenas uma escolha de recursos humanos, mas uma forma de organizar melhor o cuidado dentro da rede de saúde. Sem essa coordenação, afirma a secretária, o paciente acaba circulando por diferentes especialistas sem integração entre os atendimentos.
“Ele vira um paciente fragmentado. Tem um coração para o cardiologista, um estômago para o gastro, mas ninguém está olhando o conjunto. Às vezes encontramos pessoas tomando dois medicamentos iguais com nomes diferentes, prescritos por médicos distintos. Quando a atenção primária assume esse cuidado, o médico de família passa a coordenar tudo”, conclui Fernanda.
O cenário nacional da MFC
Experiências como a de Chapadão do Céu ainda são exceção no Brasil. Apesar de a MFC ser reconhecida como especialidade médica pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) desde 1976, na época intitulada como medicina geral comunitária e apontada como eixo estruturante do Sistema Único de Saúde (SUS), a maior parte dos municípios ainda não estruturou políticas consistentes para atrair e manter médicos de família por longos períodos.
Diretrizes como a Política Nacional de Atenção Básica (PNAB) e programas federais de provimento indicam a Estratégia de Saúde da Família como modelo prioritário de organização da atenção básica. Mas a implementação de carreira, vínculos estáveis e mecanismos de valorização profissional depende, em grande medida, de decisões locais. Na prática, isso resulta em modelos muito distintos de inserção do médico de família e comunidade no sistema de saúde de cada município.
O primeiro desafio é quantitativo. Embora o número de médicos de família tenha crescido de forma expressiva na última década — cerca de 550% em 13 anos, segundo a Demografia Médica no Brasil 2025—, eles ainda representam apenas 3,4% do total de especialistas no país. São cerca de 15 mil profissionais de MFC em um universo de mais de 450 mil especialistas em outras áreas.
A razão nacional é de 8 médicos de família por 100 mil habitantes, mas a distribuição é desigual, com 14 estados abaixo dessa média. Enquanto estados do Sul apresentam densidades bem maiores, como Santa Catarina (15,50) e Rio Grande do Sul (13,46), no extremo oposto, o Maranhão registra apenas 2,40 especialistas por 100 mil habitantes. Mesmo em Goiás, estado onde fica Chapadão do Céu, são 5,82 especialistas por 100 mil habitantes.
A dimensão do déficit fica ainda mais evidente quando analisada a estrutura da atenção primária. Em dezembro de 2025, o Ministério da Saúde registrava 55.816 equipes de Saúde da Família em funcionamento no país, número muito superior aos cerca de 15 mil médicos com formação em MFC.
“Hoje precisaríamos de pelo menos 100 mil médicos para dar conta da estrutura atual. Só para cobrir as equipes existentes, ainda faltariam mais de 35 mil profissionais”, afirma o Dr. Ricardo. “O cenário é bastante heterogêneo no país. Há programas com alta procura, mas outros enfrentam dificuldades para atrair candidatos, o que geralmente reflete as condições de trabalho e a valorização local da especialidade”, completa.
Esse cenário revela que o desafio não está apenas em abrir vagas, mas em estruturar programas de formação capazes de atrair e manter os profissionais.
Um estudo publicado em 2024 no periódico Contribuciones a las Ciencias Sociales aponta que os desafios da MFC no Brasil envolvem o modo como a formação está estruturada e articulada com os serviços do SUS. Segundo os autores, a consolidação da MFC como eixo da atenção primária depende de integração efetiva entre ensino e serviço, qualificação da preceptoria e valorização institucional da especialidade. A falta desses elementos compromete não apenas a qualidade da formação, mas também a atratividade das vagas e a permanência dos profissionais nos territórios.
Dados da Demografia Médica no Brasil 2025 reforçam essa relação ao indicar que o local de conclusão da residência médica é hoje o principal fator de fixação de especialistas no território. Médicos tendem a permanecer nas regiões onde se especializam, o que torna a distribuição desigual dos programas um obstáculo à interiorização.
“A residência muda completamente a experiência do profissional. Ele deixa de estar isolado, passa a discutir casos, trocar com colegas e ter suporte. Isso também tem impacto direto na fixação, porque ele percebe que não está sozinho no território”, afirma o Dr. Ricardo Heinzelmann.
Segundo ele, um dos principais entraves está na forma como a atenção primária ainda é compreendida por parte da gestão pública. “Muitos gestores não têm uma política a médio ou longo prazo e acabam sendo muito imediatistas. Operam numa lógica produtivista, focada no número de consultas, e não na qualidade do cuidado, com profissionais cobrados no cumprimento de metas e indicadores. Isso distorce o papel da atenção primária e desvaloriza o trabalho do médico de família.”
Evidências recentes indicam que essa escolha tem impacto direto no funcionamento de todo o sistema de saúde. Um estudo longitudinal realizado em Belo Horizonte, publicado em 2025 no periódico BMJ Open, analisou cerca de 600 mil internações no SUS entre 2017 e 2021 e mostrou que unidades básicas com maior proporção de médicos com residência em MFC apresentam taxas significativamente menores de internações por problemas que poderiam ser evitados com acompanhamento adequado na atenção primária.
Segundo a análise, se toda a atenção primária dos municípios fosse composta por médicos com essa formação, haveria uma redução estimada de 11,9% nas internações evitáveis e de 10,6% nos custos hospitalares associados a esses atendimentos. O efeito foi observado em todas as faixas de vulnerabilidade social e se manteve mesmo durante a pandemia de covid-19.
As maiores reduções ocorreram em pacientes com doenças crônicas que exigem acompanhamento contínuo, como diabetes (−32,8%), asma (−19,5%) e doenças cardiovasculares, como angina (−19,2%). “Onde há médicos de família especializados na área, há redução de internações por condições sensíveis à atenção primária e melhores resultados em saúde”, afirma Heinzelmann.
Diante desse cenário, a SBMFC tem buscado ampliar o debate sobre a especialidade e sua inserção no SUS. A entidade mantém a campanha Valoriza MFC, que reúne iniciativas de comunicação, articulação com gestores e defesa da ampliação de programas de residência e de carreiras estruturadas na atenção primária. A proposta é fortalecer o reconhecimento institucional da especialidade como eixo organizador da rede, e não apenas como solução pontual.
Lucas do Rio Verde: a aposta na formação como estratégia de fixação
Para enfrentar esse cenário, alguns municípios têm apostado em mudanças estruturais. Outra cidade que vem se destacando nesse sentido é Lucas do Rio Verde (MT), a 350 km de Cuiabá. Com cerca de 95 mil habitantes, o município passou a utilizar a própria rede de atenção primária como campo de formação em MFC em 2016, quando criou um programa de residência médica em parceria com o Ministério da Saúde, dentro da expansão nacional do Programa Mais Médicos.
A iniciativa surgiu após o município tentar aderir ao programa federal para suprir a carência de profissionais, mas sem sucesso. A cidade não atendia aos critérios da época, que priorizavam localidades com menor estrutura assistencial. Porém, dentro da mesma política federal, havia a possibilidade de expandir vagas de especialização em áreas consideradas prioritárias, como MFC, e foi esse o caminho que o município decidiu seguir.
Na época, o credenciamento do programa exigia pelo menos dois médicos com formação em MFC atuando na rede local. O município contava com apenas duas profissionais com essa qualificação — uma delas era a Dra. Fernanda Heldt Ventura, que alguns anos depois, em 2021, passou a atuar como secretária de Saúde de Lucas do Rio Verde, cargo em exerceu por 5 anos até março de 2026.
Moradora da cidade desde os seis anos de idade, a Dra. Fernanda ingressou na rede municipal de saúde em 2010 e, por vários anos, foi a única médica de família e comunidade do município. Ela participou da implantação da residência como preceptora das primeiras turmas e acabou assumindo papel central na consolidação do programa dentro da rede municipal. “Eu sempre trabalhei no SUS e na atenção primária. Quando surgiu a possibilidade de ampliar a residência, não tinha como não me envolver. A ideia era formar profissionais aqui para que eles pudessem permanecer na cidade e combater a alta rotatividade na rede.”
Diferentemente do modelo mais tradicional, vinculado a universidades ou hospitais de ensino, a residência passou a ser ofertada pela própria Prefeitura de Lucas do Rio Verde, por meio da Secretaria Municipal de Saúde, que se tornou oficialmente a instituição formadora do programa. A estrutura inclui Comissão de Residência Médica, registro no sistema nacional (SIG-Residência) e bolsas financiadas pelo Ministério da Saúde. “A residência em MFC é essencialmente prática. O médico se forma dentro da realidade do SUS, acompanhando as equipes e o território desde o início”, explica a Dra. Fernanda.
Para incentivar a formação, o município também instituiu uma bolsa complementar financiada com recursos próprios para médicos residentes em MFC, atualmente em torno de R$ 9 mil mensais, além da bolsa paga pelo Ministério da Saúde.
Após a residência, os médicos têm a chance de se fixar no município, que instituiu, por legislação própria, concursos públicos específicos para os cargos de médico de família e comunidade e de preceptor na área. “Antes, muitos profissionais eram contratados como pessoa jurídica, sem estabilidade. Hoje, temos legislação municipal, concurso público e equipes formadas. Isso muda completamente a lógica de permanência”, afirma a Dra. Fernanda.
Atualmente, o programa inicia sua décima turma de residentes. Dos 32 formados ao longo de uma década, 15 deles ainda atuam no município, seja no serviço público ou na iniciativa privada, sendo quatro deles preceptores concursados na rede local. A consolidação desse modelo também se refletiu na expansão da rede de atenção primária no município. Lucas do Rio Verde saiu de 17 equipes de Estratégia Saúde da Família em 2021 para cerca de 30 equipes distribuídas em 20 UBS em 2026.
Outro diferencial foi a criação da Escola Municipal de Saúde, credenciada para formação profissional, que funciona de forma integrada ao programa de residência e à organização da rede. Atualmente, para sustentar essa estrutura, o município investe cerca de 30% de recursos próprios em saúde, o dobro dos 15% mínimos estabelecidos pela Constituição.
Com o tempo, os efeitos começaram a aparecer também na relação com a população. As UBS que passaram a receber residentes apresentaram menos conflitos e maior resolução de problemas de saúde. “No início, havia resistência, porque as pessoas não entendiam o que era a residência. Mas elas foram percebendo que as unidades onde o programa estava implantado funcionavam melhor. Para fortalecer o vínculo, os preceptores permanecem fixos nas unidades, enquanto os residentes circulam ao longo do programa. O residente passa, mas o vínculo da população com aquele médico de referência permanece", explica a Dra. Fernanda.
A experiência da médica de família e comunidade Dra. Jéssika Rodrigues Canabarro ilustra esse processo. Recém-formada, ela chegou a Lucas do Rio Verde com a ideia de ter uma experiência de apenas um ano em uma UBS enquanto se preparava para prestar residência em pediatria. “Me deparei com uma cidade que me apresentava uma estrutura muito boa para trabalhar. Conheci a MFC e o programa de residência de perto, cheguei a ser supervisora de estágio e, no fim das contas, resolvi prestar a residência na área”, relata.
Em nome do sonho antigo, a Dra. Jéssika também se inscreveu para a residência em pediatria em São Paulo, onde foi aprovada. Mas a relação com os pacientes de Lucas do Rio Verde e o interesse cada vez maior pela MFC a fizeram permanecer na cidade. “O vínculo construído ao longo do tempo com os pacientes e as famílias foi decisivo. Eu já tive mais de uma paciente que ia na consulta com o obstetra e voltava comigo para dizer: ‘Doutora, só vou fazer o que o médico está falando se a senhora me disser que eu realmente tenho que fazer’. Eu acho o máximo essa relação de confiança que acabamos criando", conta.
Hoje, quase uma década depois de chegar ao município, a Dra. Jéssika permanece em Lucas do Rio Verde. Após concluir a residência em MFC, ela se tornou preceptora do programa e hoje atua como supervisora da residência, além de prestar apoio técnico às equipes da atenção primária.
Brasília: carreira, escala e perspectiva de futuro
Experiências como as de Chapadão do Céu e Lucas do Rio Verde indicam que a permanência de médicos de família não depende de um fator isolado, mas de uma combinação de formação, organização da rede de atenção primária, vínculo empregatício e perspectiva de carreira.
Nas duas cidades, essa combinação se traduz em condições mais vantajosas de trabalho. Nos dois casos, salários mais competitivos, vínculos públicos formais e planos de carreira com progressão remuneratória funcionam como fator de atração inicial. O concurso municipal tende a ser o modelo mais estável e desejado, seguido por vínculos celetistas. Mesmo contratações como pessoa jurídica, que costumam oferecer menos estabilidade, podem ser mais atrativas quando incluem garantias pouco comuns nesse modelo, como férias remuneradas e possibilidade de afastamento por motivo de saúde, como ocorre em Chapadão do Céu.
Em Brasília (DF), o Dr. Arthur Fernandes, médico de família e comunidade e ex-diretor do Departamento de Comunicação da SBMFC, aponta que a estrutura remuneratória busca reconhecer a formação específica do médico de família. A remuneração é composta majoritariamente por vencimento básico, acrescido de adicionais vinculados à atuação na atenção primária, à carga horária e à qualificação profissional.
Algumas gratificações são incorporadas à aposentadoria, como as relacionadas à titulação acadêmica, enquanto outras estão vinculadas a funções exercidas nos programas de residência, como a preceptoria ou a atuação direta na assistência. “Se o médico tem mestrado ou doutorado, isso se reflete permanentemente na remuneração. Já funções como a preceptoria geram adicionais enquanto o profissional está naquela atividade”, explica.
O modelo também prevê progressão por tempo de serviço e por qualificação. Há adicional anual por tempo de carreira e possibilidade de evolução salarial a cada cinco anos, mediante apresentação de currículo indicando especializações, produção científica e participação em cargos de gestão. “O médico não fica restrito a um salário fixo. Há estímulos claros para qualificação, desenvolvimento profissional e permanência”, afirma o Dr. Arthur.
A capacidade de sustentar esse modelo de carreira também está relacionada à dimensão da rede de saúde do Distrito Federal. Atualmente, o DF conta com 174 UBS e mais de 630 equipes de Saúde da Família, distribuídas em unidades de diferentes portes. Algumas operam com apenas uma equipe, enquanto outras reúnem até 11 equipes em um mesmo território. “Na unidade onde eu trabalho, são nove equipes de Saúde da Família e cerca de 100 profissionais atuando juntos. Cada equipe é responsável, em média, por até 4.500 pessoas, mas esse número pode variar conforme o perfil do território e a complexidade das demandas atendidas.”
A existência de um plano estruturado de progressão de carreira, que combina adicionais por tempo de serviço, qualificação acadêmica e desempenho profissional, é um dos fatores mais relevantes para a fixação de profissionais no longo prazo. “Quando há um caminho possível de desenvolvimento profissional, o médico consegue se projetar naquele território. E isso muda completamente a decisão de ficar ou sair”, afirma o Dr. Arthur.
Experiências mais consolidadas mostram que, quando essas condições são mantidas ao longo do tempo, a permanência dos profissionais tende a se tornar regra. Em Porto Alegre (RS), unidades vinculadas ao Grupo Hospitalar Conceição mantêm médicos de família atuando há mais de duas décadas na mesma equipe. “São profissionais que acompanharam diferentes gerações da mesma família ao longo do tempo. Isso só é possível quando há vínculo estável, carreira estruturada e um modelo consistente de atenção primária”, afirma o Dr. Ricardo Heinzelmann.
“Quando a MFC é tratada como política estruturante, e não como solução emergencial, a permanência dos profissionais deixa de ser exceção e passa a ser consequência. O médico precisa enxergar futuro dentro da rede. Quando há formação, carreira e respaldo institucional, a fixação acontece", completa o Dr. Arthur.
Na visão do Dr. Arthur, o que permitiu que municípios como Chapadão do Céu e Lucas do Rio Verde reestruturassem a rede de saúde e priorizassem médicos de família foi, sobretudo, uma decisão política. “Investir mais na atenção primária deveria ser uma decisão eminentemente técnica, porque transforma a saúde das pessoas, reduz custos hospitalares e muda a realidade do município. Mas, na prática, acaba sendo também uma decisão política, que depende do entendimento do benefício para a população ao ponto de o prefeito optar por oferecer uma carreira em MFC com salário atrativo, plano de cargos e valorização desses profissionais”, conclui.
Débora Costa e Silva é jornalista independente. Com mais de 20 anos de experiência em redação e edição, colaborou com veículos como UOL, Veja e Exame, onde coordenou a área de copywriting e conteúdo. Atua com produção jornalística, projetos de marketing digital e estratégia de conteúdo.
Fonte: MEDSCAPE