quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Tecnologias aplicadas à saúde podem antecipar riscos, mas só reduzem desigualdades se chegar a quem mais precisa, alerta especialista do IEEE




Maior organização profissional técnica do mundo dedicada ao avanço da tecnologia em benefício da humanidade aponta que monitoramento remoto e telemedicina só geram impacto real quando saem do piloto e chegam aos territórios mais vulneráveis

Janeiro, 2026 – O avanço acelerado das tecnologias digitais aplicadas à saúde tem ampliado as possibilidades de prevenção, diagnóstico precoce e acompanhamento de pacientes em diferentes contextos. Ainda assim, quando essas soluções não são pensadas para funcionar na realidade de comunidades em situação de vulnerabilidade, o impacto tende a ser limitado — ou, em alguns casos, pode até aprofundar desigualdades já existentes. Esse é o alerta de Suélia Fleury Rosa, membro sênior do IEEE, maior organização profissional técnica do mundo dedicada ao avanço da tecnologia em benefício da humanidade.

Desigualdades sociais, econômicas e territoriais seguem influenciando diretamente os resultados em saúde e o acesso a serviços de prevenção e cuidado. Em muitos territórios, o diagnóstico tardio ainda é a regra, especialmente no caso de doenças crônicas e condições evitáveis, que poderiam ser tratadas de forma mais eficaz se identificadas precocemente. Esse cenário, amplamente reconhecido por organismos internacionais e estudos como o Relatório Mundial sobre Determinantes Sociais da Equidade em Saúde, publicado pela OMS em 2025, tem impulsionado a busca por soluções tecnológicas capazes de antecipar riscos, apoiar a atenção primária e reduzir lacunas históricas de acesso.

Segundo Suélia, tecnologias como telemedicina, monitoramento remoto e sistemas digitais de apoio à decisão clínica vêm contribuindo para uma mudança gradual no modelo de cuidado, que deixa de ser predominantemente reativo para priorizar a prevenção. “Ao permitir triagens digitais, acompanhamento à distância e melhor organização dos fluxos de atendimento, essas soluções ajudam equipes de saúde a agir de forma mais antecipada, priorizar casos de maior risco e oferecer cuidados fora do consultório tradicional. Na prática, isso contribui para reduzir atrasos no diagnóstico, evitar agravamentos evitáveis e aliviar a sobrecarga dos sistemas de saúde, especialmente em regiões com poucos recursos”, explica.

Apesar desse potencial, a especialista ressalta que um dos principais entraves está na dificuldade de transformar iniciativas tecnológicas em soluções duradouras. “Muitas experiências permanecem restritas a projetos-piloto ou aplicações pontuais, sem integração aos sistemas locais de saúde ou continuidade no longo prazo. Quando isso ocorre, o potencial transformador da tecnologia se perde antes de chegar a quem mais precisa”, detalha.

Garantir que essas soluções gerem impacto real exige mais do que desenvolvimento técnico. Infraestrutura adequada, capacitação das equipes, planejamento de longo prazo e envolvimento das comunidades desde as fases iniciais são fatores decisivos para que a inovação contribua efetivamente para a redução das desigualdades em saúde. “A tecnologia só cumpre seu papel social quando é desenhada para incluir, e não para excluir. Se ela não chegar a quem mais precisa, corre o risco de ampliar desigualdades em vez de reduzi-las”, afirma Suélia.

O desafio, portanto, não está apenas em criar novas ferramentas, mas em assegurar que elas sejam confiáveis, sustentáveis e adaptáveis às diferentes realidades territoriais. Muitas iniciativas não avançam além do estágio experimental por não atenderem às necessidades reais das comunidades, enfrentarem limitações de infraestrutura ou não contarem com evidências suficientes que sustentem sua adoção em escala. “Sem planejamento e compromisso de longo prazo, a tecnologia corre o risco de se tornar apenas uma boa ideia”, destaca.

Nesse contexto, o IEEE atua como um articulador entre conhecimento técnico, desenvolvimento tecnológico e demandas reais da sociedade, promovendo o uso responsável da tecnologia em áreas como saúde, educação e bem-estar social. A organização reúne engenheiros, pesquisadores e educadores de diversos países com o objetivo de transformar inovação em soluções práticas, escaláveis e orientadas ao impacto humano. “A inovação em saúde só faz sentido quando consegue melhorar a vida das pessoas de forma concreta. Antecipar riscos é fundamental, mas reduzir desigualdades exige compromisso, continuidade e presença nos territórios”, conclui Suélia.

Sobre o IEEE
O IEEE é a maior organização profissional técnica do mundo e uma instituição beneficente pública dedicada ao avanço da tecnologia em benefício da humanidade. Com suas publicações altamente citadas, conferências, padrões tecnológicos e atividades profissionais e educacionais, o IEEE é uma voz confiável em uma ampla gama de áreas, que vão desde sistemas aeroespaciais, computadores e telecomunicações até engenharia biomédica, energia elétrica e eletrônicos de consumo. Saiba mais em https://www.ieee.org.

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