Dra. Carla Vorsatz
Você está no plantão da emergência ou da unidade de tratamento intensivo. Um paciente acaba de ter uma parada cardiorrespiratória e você inicia a reanimação.
Ao seu redor, cinco pacientes entubados e graves, todos seus, todos instáveis. Você está sozinha. O laboratório manda os resultados dos eletrólitos de três deles ao mesmo tempo; você lê, avalia, decide, prescreve e registra no prontuário.
Sem possibilidade de segunda opinião. Sem tempo de conferir. Não tem rede de segurança. Só você e a palavra impressa no resultado.E é nessa palavra que reside o problema que você desconhece.
Todo médico que já fez plantão na emergência ou na unidade de tratamento intensivo (UTI) sabe o que é o desequilíbrio hidroeletrolítico. É o pão nosso de cada plantão. O paciente grave está, por definição, em desequilíbrio hidroeletrolítico — ou está em acidose, ou está em alcalose, e invariavelmente os eletrólitos estão descompensados. Sódio, potássio, cálcio, magnésio, cloro: todos precisam ser dosados, todos precisam ser corrigidos, e todos precisam ser corrigidos agora, porque a margem para erro é zero e a janela de tempo é estreita.
Os protocolos das emergências e das UTIs determinam a repetição dos principais eletrólitos a cada 12 horas, justamente porque o desequilíbrio se reinstala de forma contínua, e a correção precisa acompanhar esse ritmo.
É um trabalho de Sísifo, e qualquer médico intensivista ou emergencista sabe disso na pele: a gente se esfalfa para corrigir no organismo o que a doença insiste em descompensar.
A acidose corrigida às oito da manhã pode ter voltado ao meio-dia. O potássio reposto às duas da tarde pode estar baixo de novo às oito da noite. É assim todo plantão, todo dia, toda noite.
Agora, olhe para as duas palavras que determinam duas das reposições: hipo/hipercalemia e hipo/hipercalcemia.
- Hipo/hipercalemia é a deficiência ou o excesso de potássio no sangue.
- Hipo/hipercalcemia é a deficiência ou o excesso de cálcio no sangue.
São dois desequilíbrios de eletrólitos inteiramente diferentes, com duas necessidades diferentes de reposição, com consequências completamente distintas — e as duas palavras se diferenciam por uma única letra no meio: o pequeno "c" de hipocalcemia.
Uma letra. Uma só. No meio da palavra. É pedir para o erro acontecer.
E as alterações dos dois eletrólitos ocorrem no mesmo paciente, ao mesmo tempo, na mesma folha de prescrição, no mesmo plantão. O paciente grave da UTI não tem desequilíbrio do potássio ou desequilíbrio do cálcio. Pode ter um ou outro, ou os dois.
E as informações sobre os dois chegam juntas no resultado do laboratório, algumas vezes na mesma linha de texto. E sobretudo: as informações de todos os pacientes chegam ao mesmo tempo.
Agora voltemos ao cenário: você está sozinha, com seis pacientes graves e instáveis; as informações do laboratório acabam de chegar, e você lê "hipocalemia". O cérebro, que está processando dezenas de decisões simultâneas em modo de sobrevivência, faz a associação mais rápida disponível: "hipo-cal" — cálcio. E você repõe o cálcio. Para um paciente que precisava de potássio.
Repondo cálcio na hipocalemia
Se o erro for ler hipocalcemia em vez de hipocalemia e o médico prescrever a reposição de cálcio em vez de potássio em um paciente com potássio baixo, o resultado é um erro terapêutico potencialmente fatal.
O cálcio não pode substituir o potássio no organismo, e os dois íons desempenham funções opostas ou distintas na condução elétrica cardíaca.
Ao administrar cálcio desnecessariamente, o médico corre o risco de provocar hipercalcemia, que por si só agrava a instabilidade elétrica do coração e pode precipitar uma arritmia fatal.
Ao mesmo tempo, a hipocalemia que deveria ter sido corrigida permanece sem tratamento, e a queda progressiva do potássio pode levar à paralisia respiratória.
O paciente, portanto, é agredido em duas frentes simultâneas: recebe o que não precisa e não recebe o que o manteria vivo.
Repondo potássio na hipocalcemia
Se o erro for ao contrário — o paciente está com hipocalcemia e o médico, ao ler rápido demais, pula a letra c e pensa em hipocalemia —, a reposição de potássio em vez de cálcio é igualmente grave, porque não trata a causa da emergência e ao mesmo tempo introduz riscos novos e independentes.
A hipocalcemia não corrigida mantém o paciente exposto a tetania, convulsões, laringoespasmo e insuficiência cardíaca. Se o paciente não precisava repor potássio, a administração cria uma hiperpotassemia iatrogênica, e o aumento dos níveis de potássio é diretamente cardiotóxico, podendo causar arritmia grave, parada cardíaca e paralisia muscular. A combinação dessas duas alterações — cálcio baixo prolongando o intervalo QT no eletrocardiograma e potássio alto produzindo a onda T apiculada — aumenta exponencialmente o risco de arritmia ventricular fatal.
Somando-se a tudo isso, o cloreto de potássio é extremamente irritante para as veias, e sua administração inadequada pode causar flebite com perda do acesso venoso e, em caso de extravasamento, necrose tecidual.
E o seu paciente morre.
E ninguém investiga, porque ele já estava gravíssimo, porque a morte "era prevista", porque não houve necropsia, porque ninguém pensou em auditar a terminologia da prescrição. O erro desaparece no próprio cenário que o produziu.
Como chegamos aqui?
O potássio tem o nome que usamos no dia a dia, mas na nomenclatura química internacional o seu nome é Kalium —lembre-se da tabela periódica. Tanto que, ao se solicitar a dosagem, é comum escrever no pedido: Na+, K+, Ca2+, Cl-, não é mesmo? Talvez você não se lembre que esse K vem de Kalium, embora saiba perfeitamente que se trata de potássio.
Kalium é o termo latino.
De etimologia controversa, esse elemento metálico teve seu nome cunhado pelo químico inglês Sir Humphry Davy em 1807. Ele foi o primeiro a isolar o potássio das cinzas de uma panela (do inglês Potash e do alemão Pottasche, passando pelo francês potasse).
Kalium é o nome neolatino e o termo científico internacional para o elemento químico potássio (símbolo K, número atômico 19), derivado de alkali, oriundo do árabe al-qaliy (القالي ), designando "cinzas” ou “cinzas queimadas".
Quando a terminologia médica em inglês precisou criar os termos para os distúrbios causados pela alteração dos níveis séricos de potássio, usou a raiz da notação química da tabela periódica: hypokalemia, hyperkalemia. Com k, de kalium. O cálcio, por sua vez, gerou hypocalcemia, hypercalcemia. Com c, de calcium.
Em inglês, não há a menor possibilidade de confusão: kalemia e calcemia não se parecem nem de longe, a diferença salta aos olhos.
O português fez uma escolha diferente.
Como a letra k só foi reintroduzida no alfabeto brasileiro em janeiro de 2009, com a entrada em vigor do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 (junto com o w e y, o k tinha sido banido em 1943, embora essas três letras sempre tenham sido usadas somente em nomes próprios, siglas e palavras estrangeiras), o radical kal- foi aportuguesado para cal-.
E nesse momento — nesse exato momento linguístico crucial — foi criada a colisão: calemia (de kalium, potássio) e calcemia (de calcium, cálcio) passaram a se diferenciar por uma única consoante no meio da palavra.
A armadilha não foi intencional.
Foi um legítimo acidente etimológico, aceito pelo desconhecimento de suas nefastas implicações.
Mas este acidente, que ninguém corrigiu em décadas, a cada plantão, a cada resultado de laboratório, a cada prescrição, põe vidas humanas em risco.
E o detalhe que muita gente desconhece: o termo potassemia existe em português. Existia, era usado, era corrente na literatura médica brasileira antes da década de 1980.
Hipopotassemia, hiperpotassemia — termos claros, inequívocos, que usam a raiz do nome que nós, brasileiros, efetivamente usamos para o elemento: potássio. Não kalium, não kal-, não cal-. Potássio. Potassemia. Hiperpotassemia/hipopotassemia.
O que aconteceu depois da década de 1980 foi a influência esmagadora do inglês sobre a terminologia médica em todo o mundo, e particularmente no Brasil.
Os artigos, os livros-texto, os protocolos, as diretrizes — tudo passou a vir do inglês, e a tradução acrítica dessas fontes trouxe consigo a forma calemia, decalque linguístico de kalemia, sem que ninguém parasse para pensar que no português essa forma era perigosa.
O termo potassemia, que resolvia o problema, foi sendo abandonado por desuso — não porque fosse incorreto, não porque fosse impreciso, mas por não ser a tradução direta do inglês.
Perdemos a solução que já era nossa.
A proposta
A correção desse deslize terminológico, com a consequente proteção do paciente, não exige tecnologia. Não exige legislação.Não exige investimento. Exige rigor.
Se usarmos hipopotassemia e hiperpotassemia para os desequilíbrios do potássio, e hipocalcemia e hipercalcemia para os desequilíbrios do cálcio, a ambiguidade desaparece. Completamente. Não há como confundir potassemia com calcemia. Não há como ler "hipopotassemia" e pensar em cálcio. Não há como prescrever a reposição errada por causa de uma letrinha que o olho cansado ou sobrecarregado do médico de plantão deixou escapar.
Eu queria muito ter acesso ao banco de dados cósmico para saber quantos pacientes morreram ao longo dos anos por iatrogenia inadvertida de origem “terminológica”.
Quantos médicos, assoberbados, tomando decisões rápidas e graves para vários pacientes ao mesmo tempo, se enganaram por causa de uma consoante.
Quantos pacientes receberam cálcio quando precisavam de potássio ou vice-versa e foram a óbito, e ninguém pediu necropsia porque a morte foi considerada "natural", porque o paciente "já estava em estado gravíssimo".
Não foi natural. Foi erro médico — um erro no qual o médico foi induzido por falta de rigor linguístico.
Se voltarmos a usar hipopotassemia e hipercalcemia, estaremos salvando vidas. Não é exagero. Não é retórica. É aritmética: basta que um único médico, em um único plantão, não confunda mais as duas palavras para que algum paciente sobreviva a uma noite que não precisava ser a sua última.
Melhores palavras, melhores diagnósticos. Literalmente.
Nota sobre a conduta: o gluconato de cálcio é utilizado para proteger o coração na hiperpotassemia, estabilizando a membrana celular, e não para tratar o déficit de potássio.
Dra. Carla Vorsatz é médica com pós-graduação lato sensu em Doenças Infecciosas e Parasitárias, ambas as formações feitas na Universidade Federal Fluminense. É a autora do Dicionário de dúvidas e dificuldades do inglês médico para o português do Brasil, versão brasileira do original Libro Rojo do médico espanhol Dr. Fernando Navarro. Dedica-se a estudos linguísticos e terminológicos concentrados na linguagem médica. Acompanhe o trabalho de estudos da linguagem médica da Dra. Carla Vorsatz em Melhores palavras, melhores diagnósticos e suas publicações no linktr.ee.
Fonte: Medscape (https://portugues.medscape.com)

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