segunda-feira, 9 de março de 2026

Como o descanso se tornou um tabu na medicina


Por anos, o médico Dr. Menachem Jacobs acreditou que descansar significava simplesmente dormir.

Durante a residência no Yale New Haven Hospital, nos Estados Unidos, ele se esforçava para obter descanso suficiente, algo que raramente acontecia. Ainda assim, mesmo quando conseguia dormir a noite inteira, não experimentava a recuperação esperada. O corpo podia até desacelerar, mas sua mente não.

“Minha mente não parava de repassar os prontuários dos pacientes”, relatou. “Nem mesmo ficar sentado no sofá ajudava.”

Foi então que começou a compreender algo que poucos profissionais reconhecem: o verdadeiro descanso exige mais do que apenas se deitar. É preciso interromper os padrões mentais repetitivos que a prática médica impõe e que mantêm os médicos em constante estado de alerta.

Foi então que o Dr. Menachem começou a fazer trilhas. Durante o percurso, a necessidade de atenção ao solo e ao terreno exige um tipo de foco que ancora a mente no momento presente. A atividade física, segundo ele, ajuda a organizar os pensamentos.

Ao retornar ao trabalho após uma trilha, a diferença se torna evidente. Ele se sente mais estável, menos reativo e mais capaz de se concentrar na pessoa à sua frente. Em uma profissão que se baseia na vigilância constante, esse tipo de desconexão deliberada tem se tornado essencial.

Mas se a estratégia é aparentemente simples, por que tantos médicos têm dificuldade em colocá-la em prática?

Por que é tão difícil descansar verdadeiramente na medicina?

A educação médica sempre valorizou a resistência. Desde os primeiros anos, os médicos são ensinados a perseverar apesar da fadiga. Jornadas extensas, plantões noturnos e responsabilidade constante são tratados como ritos de passagem. Na cultura médica, a privação crônica de sono é frequentemente interpretada como uma prova de que o trabalho está sendo feito corretamente.

Nesse contexto, a lição implícita é que um bom médico não tem necessidades, ou ao menos não as reconhece. Com o tempo, esse tipo de expectativa se internaliza profundamente.

“Na medicina, o descanso costuma ser tratado como fraqueza, e não como prioridade”, afirmou a Dra. Stacey Elliott, psiquiatra que atende médicos nos EUA. “Na melhor das hipóteses, ele é colocado em segundo plano; na pior, é ativamente rejeitado."

A Dra. Stacey observa regularmente as consequências desse padrão em seus pacientes e em sua própria experiência. Segundo ela, descansar não é algo que a maioria dos médicos se permite espontaneamente. Trata-se de uma decisão deliberada, que exige confrontar a cultura na qual esses profissionais foram formados.

Muitos médicos entrevistados pelo Medscape descreveram a dificuldade em reconhecer o próprio esgotamento, pois a exaustão havia se tornado o estado habitual e deixado de ser percebida como um sinal de alerta.

Essa normalização dificulta intervenções posteriores, explicou a Dra. Stacey. Quando se tornam médicos assistentes, muitos já passaram uma década ou mais excedendo seus próprios limites.

Parte do problema é que, na medicina, o descanso costuma ser reduzido a formas passivas de distração após a exaustão. Depois de um longo plantão, alguns médicos gostam de navegar na internet, maratonar séries ou se isolar. Essas atividades podem ser distrativas, observou a psiquiatra, mas dificilmente promovem uma recuperação verdadeira.

Por que o tempo de desconexão é mais valioso do que o tempo livre?

O Dr. Tait Shanafelt, médico, diretor de bem-estar na Stanford Medicine, nos EUA, e um dos principais pesquisadores norte-americanos sobre esgotamento entre médicos, passou anos estudando os preditores de sofrimento psíquico nesses profissionais. Um dos fatores mais importantes não é a personalidade nem a resiliência, mas a capacidade de realmente se desconectar do trabalho.

Em um estudo de 2024 publicado no periódico JAMA, o Dr. Tait e outros pesquisadores verificaram que os médicos que tiravam menos de 15 dias de férias por ano tinham uma probabilidade significativamente maior de apresentar esgotamento. Aproximadamente um em cada cinco participantes havia tirado menos de uma semana de férias no ano anterior — um achado pouco surpreendente.

Os pesquisadores constataram ainda um dado particularmente relevante: o risco de esgotamento era ainda maior entre médicos que não tinham alguém designado para gerenciar seus e-mails enquanto estavam ausentes ou que dedicavam mais de 30 minutos por dia a demandas de trabalho durante as férias.

“Esses achados ilustram a importância de se desconectar do trabalho a fim de recarregar as energias”, afirmou o Dr. Tait. “Para que isso ocorra, são necessárias ações tanto institucionais quanto individuais.”

Segundo o pesquisador, muitas redes de saúde investiram fortemente em iniciativas de bem-estar, mas mantiveram a carga de trabalho praticamente inalterada. Aulas de ioga e aplicativos de atenção plena coexistem com e-mails quase onipresentes e agendas que tornam a desconexão quase inviável.

Os impactos vão além do bem-estar dos médicos. O esgotamento profissional tem sido consistentemente associado a taxas mais elevadas de erros, menor satisfação do paciente e maior rotatividade em diversas especialidades. Nessas condições, a atenção se reduz, a tomada de decisões se torna mais lenta e a empatia é comprometida.

As pesquisas do Dr. Tait também mostraram que médicos com esgotamento têm probabilidade significativamente maior de reduzir a carga de atendimento clínico ou até mesmo abandonar a prática médica, agravando a escassez de profissionais que muitos sistemas de saúde já enfrentam.

Descanso verdadeiro versus descanso ilusório

Parte do problema é que a medicina muitas vezes interpreta erroneamente o termo "descanso".

“Com frequência, ele é confundido com dissociação, uma espécie de desconexão mental completa de si mesmo e do ambiente”, explicou a Dra. Stacey. O verdadeiro descanso, argumenta ela, requer intenção. Descansar significa permitir que o sistema nervoso desacelere, e não apenas substituir um tipo de estímulo por outro.

Para a psiquiatra, a recuperação mental genuína é intencional, ainda que em pequenas doses, e pode ser alcançada por meio práticas simples, como meditar por 10 minutos ou sentar-se ao ar livre sem usar o celular. Ler um livro ou brincar com os filhos sem recorrer a dispositivos eletrônicos também são bons exemplos. Em essência, trata-se de atividades que favorecem a presença, em vez da produtividade.

Ela incentiva outros médicos a programarem o descanso da mesma forma que agendam atendimentos ou reuniões, não como uma recompensa por concluir todas as tarefas, mas como uma parte inegociável do dia.

O Dr. Jordan Spencer, psiquiatra que atua nos EUA, faz uma distinção semelhante entre o que chama de recuperação passiva e recuperação ativa. Segundo ele, simplesmente “desligar-se do mundo” não é suficiente. O descanso, assim como o treinamento físico, exige esforço.

“É preciso descansar com a mesma intensidade com que se trabalha”, afirmou, citando atletas de elite que incorporam períodos estruturados de recuperação aos seus programas de treinamento. Atletas olímpicos incluem rotinas de massagem e alongamento em seus cronogramas, pois submeter o corpo a esforço contínuo sem pausas adequadas leva a lesões. O mesmo princípio se aplica aos médicos, segindo ele, ainda que a natureza do trabalho seja diferente.

Para muitos profissionais, essa compreensão chega tarde. Após anos funcionando em constante estado de esgotamento, o descanso parece algo estranho ou até mesmo desconfortável. Inclusive, aprender a descansar muitas vezes exige desaprender parte do que a formação médica ensinou.

Quando o ambiente vai contra o descanso

Mesmo quando os médicos entendem o que é o verdadeiro descanso, muitos atuam em ambientes que o dificultam, mantendo-os em estado de alerta constante.

Os hospitais são projetados para maximizar a eficiência e a prontidão contínua. Iluminação intensa, atividade constante e prontuários eletrônicos que estendem a jornada de trabalho para além do hospital reforçam uma mentalidade crônica de produtividade, mesmo fora do horário formal de trabalho.

Muitas dessas escolhas de design dos ambientes assistenciais foram feitas com boas intenções, apontou o Dr. Upali Nanda, Ph.D., sócio e vice-presidente executivo da empresa de design HKS, que estuda o design de serviços de saúde e o bem-estar das equipes assistenciais. Estações de trabalho centralizadas favorecem a comunicação; iluminação intensa reduz erros; espaços abertos ampliam a visibilidade. No entanto, com o tempo, essas características podem contribuir para a sobrecarga sensorial, sobretudo quando não há locais confiáveis que permitam sair do estado de alerta máximo.

As pesquisas do Dr. Upali mostraram que o acesso à natureza, à arte e à interação social pode ser cognitivamente restaurador, mesmo quando oferecido por curtos períodos. Contudo, esses elementos só geram impacto quando integrados aos espaços de uso cotidiano.

“Elementos de descanso e recuperação precisam ser incorporados às áreas onde as pessoas já passam uma parcela significativa do tempo”, afirmou ela, citando locais de circulação e postos de enfermagem como exemplos.

O Dr. Mark Linzer, médico e diretor do Institute for Professional Worklife na Hennepin Healthcare, nos EUA, também destacou as limitações de tratar o descanso como um benefício opcional, em vez de parte integrante do trabalho. Em suas pesquisas, o descanso só se torna possível quando a estrutura do trabalho o permite.

Segundo ele, a eficiência de forma isolada não é suficiente. Sem mudanças no ritmo de trabalho e na cobertura das atividades, até mesmo as iniciativas de descanso mais bem-intencionadas tendem a falhar. “Mudanças estruturais que viabilizem períodos de descanso, pausas e cochilos podem ser muito úteis”, afirmou, sobretudo em cenários nos quais os médicos se sentem pressionados a ignorar o cansaço e a trabalhar além dos próprios limites.

Em conjunto, os achados do Dr. Upali e do Dr. Mark apontam para a mesma conclusão: promover o descanso na área da saúde depende menos da criação de espaços simbólicos e mais da reformulação da forma como o trabalho é organizado. Sem ajustes no ritmo, na carga de trabalho e na eficiência operacional, até mesmo intervenções de design cuidadosamente planejadas dificilmente produzirão impacto significativo.

Quando o descanso se torna uma forma de resistência

Para alguns médicos, a discussão sobre descanso vai além da logística e adentra o campo dos valores pessoais. Reaprender a descansar pode exigir não apenas mudanças na rotina, mas também uma transformação fundamental da própria identidade.

A enfermeira Tavi Schlueter, que atua em colaboração com médicos nos EUA, apontou que o descanso na área da saúde costuma ser definido de maneira bastante restrita. “Muitas vezes, ele se resume ao número de horas de sono, em vez de uma recuperação genuína”, afirmou. Descansar ainda parece algo radical na medicina, acrescentou, pois a resistência costuma ser equiparada à competência.

Segundo a enfermeira, o descanso efetivo envolve estabelecer limites e libertar-se da pressão pela produtividade. “Essas escolhas podem não parecer convencionais”, disse ela, “mas são essenciais para a sustentabilidade [da profissão]”.

“Enquanto o descanso não for tratado como uma questão relacionada à segurança do paciente e uma estratégia de retenção de profissionais, e não como uma fraqueza pessoal, ele continuará sendo percebido como algo contrário à cultura dominante”, afirmou Tavi.

Essa tensão se intensifica à medida que a assistência à saúde passa a ser cada vez mais moldada por prioridades corporativas. Metas de produtividade, códigos de faturamento e métricas de eficiência deixam pouco espaço para a recuperação dos médicos, mesmo quando as demandas emocionais associadas ao cuidado se tornam mais intensas.

Para médicos que atuam em ambientes altamente focados na produtividade, optar pelo descanso pode soar como um ato de rebeldia silenciosa. Essa escolha desafia a crença de que, para cuidar de alguém, é necessário se autoanular.

Descanso como habilidade profissional

Para o Dr. Menachem, o descanso deixou de ser algo a ser encaixado na rotina apenas após o término do trabalho; passou a ser encarado como parte intrínseca da própria atividade profissional.

A Dra. Stacey entende o descanso como algo que precisa ser planejado e protegido, sobretudo em uma profissão que facilmente ocupa toda e qualquer brecha disponível. Em sua avaliação, o descanso não funciona como recompensa após a conclusão das tarefas, mas como condição para manter um bom desempenho.

Essa diferença importa. Nas entrevistas, o descanso raramente é descrito como uma forma fuga. Pelo contrário, é definido como uma prática de preservação — algo que torna o trabalho sustentável. Essa perspectiva contraria um mito antigo do profissionalismo médico: o ideal do profissional incansável e abnegado, sempre disponível e disposto a ignorar o próprio cansaço. Nesse modelo, a fadiga é algo esperado, e a recuperação, sempre adiada. O custo pessoal passa a ser tratado como parte do trabalho.

No entanto, uma definição diferente vem ganhando espaço, baseada na competência, e não na resistência. Ser competente exige raciocínio preciso e controle emocional, o que implica reconhecer quando a capacidade de julgamento está comprometida pelo esgotamento. Sob essa ótica, o descanso não é um luxo nem uma escolha de estilo de vida, mas uma prática de segurança.

A medicina depende de profissionais capazes de pensar com clareza sob pressão e de permanecer emocionalmente disponíveis em situações difíceis. Essa capacidade não nasce do trabalho em estado de exaustão; ela depende de reconhecer o momento de parar, recuar e se recuperar.

O descanso não é o oposto de profissionalismo. Na verdade, pode ser uma de suas expressões mais claras.

Este conteúdo foi traduzido do Medscape

Créditos
Imagem principal: Doberman84/Dreamstime
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