Daniela Barros
A espiritualidade sempre esteve presente no consultório médico, seja nas palavras do paciente ou nas decisões de fim de vida. Não falta vivência clínica nessa área, mas ainda são escassas as orientações sobre como escutar o paciente, abordar o assunto e, sobretudo, entender quais são os limites éticos. Nos últimos anos, o tema deixou de ser um dilema individual dos médicos e virou pauta institucional.
Um marco foi a criação da Comissão de Saúde e Espiritualidade pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), em março de 2025, uma iniciativa pioneira que reconhece a espiritualidade como parte da prática clínica, especialmente em contextos de sofrimento, doenças crônicas e saúde mental.
O Medscape conversou com um dos integrantes da comissão, o psiquiatra Dr. Alexander Moreira-Almeida. Ele é professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e contribuiu com extensa produção científica sobre a interface entre espiritualidade e saúde, além de ser coautor de diretrizes clínicas da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) para integração da espiritualidade no cuidado da saúde mental e participante da força-tarefa da 11ª Revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID-11) da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Na conversa, o Dr. Alexander abordou desde o diagnóstico diferencial entre transtorno mental e experiência espiritual até pesquisas com médiuns e estudos sobre consciência além do cérebro — e explicou por que o Brasil virou referência mundial nessa área.
Medscape: Em que momento da sua formação ou da sua atuação o senhor percebeu que espiritualidade e medicina eram temas com que a psiquiatria não estava sabendo lidar?
Dr. Alexander: Isso aconteceu ainda na faculdade. Meu primeiro estudo sobre a relação entre espiritualidade e medicina é de 1995, quando eu estava na metade do curso de medicina. Já naquele momento comecei a perceber uma carência importante: a espiritualidade tinha um papel relevante para muitas pessoas, mas era frequentemente ignorada no ambiente científico, nos estudos da área da saúde e na própria formação médica.
Naquela época, passei a me interessar pelos poucos artigos que existiam sobre essa interface. Também comecei a ler trabalhos de professores de psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP), especialmente dos professores Dr. Jorge Amaro e Dr. Francisco Lotufo Neto, que publicaram, em meados dos anos 1990, alguns artigos abordando esse tema na Revista de Psiquiatria Clínica da USP.
Isso me chamou a atenção porque ficou claro que havia, sim, uma literatura científica sobre espiritualidade e saúde, mas que esse assunto simplesmente não era discutido durante a graduação. Ou seja, era uma dimensão inexistente na formação médica universitária.
Eram os pacientes que traziam essa questão da espiritualidade e da fé durante as consultas?
Dr. Alexander: Sim, o tema aparecia e aparece até hoje. Ao colher a história clínica, é muito comum que os pacientes utilizem termos religiosos ou espirituais para falar de suas experiências. Há relatos, por exemplo, de pessoas que dizem não ter tirado a própria vida por causa da fé, por acreditarem que apenas Deus pode tirar a vida, ou que afirmam que Deus lhes dará força para enfrentar determinada situação.
Isso é algo bastante frequente na prática e surge em todas as especialidades; os pacientes trazem essas referências espontaneamente ou quando encontram espaço para fazê-lo.
Ao mesmo tempo, muitos têm receio de falar sobre espiritualidade, com medo da reação do profissional de saúde, seja o médico ou o psicólogo. Há o temor de que esse aspecto da vida seja desqualificado, negado ou tratado de forma inadequada. Por isso, muitos acabam não abordando o tema espontaneamente.
Quando o profissional abre espaço e pergunta — justamente o que recomendamos —, ao questionar se a pessoa tem alguma espiritualidade ou participa de algum grupo religioso ou espiritual, mesmo dentro de uma anamnese com questões sobre família, trabalho e rotina, a imensa maioria passa a falar disso de forma mais clara.
Esse fenômeno se repete em todas as áreas da medicina, especialmente em contextos de maior sofrimento, como na oncologia, nas doenças crônicas ou em situações que ameaçam a vida. Não por acaso, a Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade já mantém uma comissão de estudos sobre espiritualidade, reconhecendo tanto a frequência desse tema na prática clínica quanto o papel que o envolvimento com crenças, comunidades e grupos religiosos pode ter no enfrentamento dos problemas de saúde.
Houve resistência, desconfiança ou estigmatização dessa linha de pesquisa dentro da medicina?
Dr. Alexander: Sim, houve. Muitas vezes esse tema era visto como algo que não deveria ser abordado. Ao mesmo tempo que algumas pessoas apoiavam e reconheciam a importância de estudá-lo, outras afirmavam que essa linha de pesquisa não poderia ser tratada de forma científica, classificando-a como uma negação da ciência ou um retorno ao misticismo.
Isso aconteceu ao longo de décadas. Já são cerca de 30 anos de trabalho nessa área. Hoje, esse tipo de resistência diminuiu bastante. Ainda existem pessoas que acusam esse campo de ser pseudociência ou negacionismo científico, mas elas representam uma parcela muito menor do que no passado.
O que chama a atenção é que, dentro do ambiente científico de alto nível, essas resistências sempre foram menores do que entre pessoas que dizem falar em nome da ciência, como alguns divulgadores. Nas universidades, nos órgãos de fomento, como a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig), e nas revistas científicas, sempre houve uma abertura maior para esse tipo de pesquisa.
Como é a sua pesquisa hoje? O que vem sendo avaliado e observado?
Dr. Alexander: Atualmente, trabalhamos com três linhas fundamentais de pesquisa. A primeira é de caráter histórico e filosófico e se dedica a analisar o desenvolvimento das pesquisas científicas em espiritualidade ao longo do tempo. Isso porque existe uma ideia bastante difundida — e equivocada — de que sempre houve um conflito entre ciência e religião, entre fé e razão. Hoje, nenhum historiador relevante da ciência sustenta essa visão.
Nessa linha, investigamos como o estudo da espiritualidade foi construído historicamente e destacamos pesquisadores importantes da filosofia, da psicologia e da medicina que se dedicaram a esse tema nos últimos 100 anos. Entre eles estão Carl Jung e Viktor Frankl, ambos psiquiatras, e o médico William James, considerado o pai da psicologia científica em Harvard. São autores que estudaram a espiritualidade de forma não dogmática, muitas vezes questionando uma visão estritamente materialista que reduz o ser humano apenas ao biológico ou ao social.
A segunda linha, que é a mais comum na literatura científica, investiga o impacto da espiritualidade sobre a saúde. Exemplo disso é um estudo que realizamos em parceria com a USP, envolvendo mais de 10 mil estudantes universitários de todo o Brasil, no qual observamos que aqueles com maior envolvimento religioso tinham duas vezes menos chance de ter usado drogas lícitas ou ilícitas no mês anterior.
Outro trabalho foi conduzido com pacientes com transtorno bipolar, no serviço de psiquiatria da UFJF. Foram quase 160 pacientes acompanhados por dois anos, e identificamos que aqueles com maior envolvimento religioso e espiritual apresentavam três a quatro vezes menos chance de depressão e melhor qualidade de vida. Ao mesmo tempo, também observamos usos negativos da espiritualidade, como quando o paciente nega o tratamento médico por acreditar que será curado apenas por intervenção divina.
A terceira linha de pesquisa, na qual o Brasil se tornou uma referência mundial, é o estudo das experiências espirituais em si. Entram aqui experiências de quase morte, experiências de saída do corpo, vivências de final de vida, experiências mediúnicas e relatos de supostas memórias de vidas passadas.
Orientamos, por exemplo, uma pesquisa de doutorado que analisou mais de 200 casos de experiência de quase morte no Brasil. Observamos que a imensa maioria não tinha conhecimento prévio sobre esse tipo de experiência. Apenas uma pessoa não tinha certeza de que a experiência fosse real do ponto de vista espiritual. Para a maioria, foi uma das experiências mais importantes da vida, com grande impacto existencial.
Também investigamos experiências mediúnicas, com foco no diagnóstico diferencial entre uma experiência espiritual saudável e um transtorno mental. Estudamos o impacto dessas experiências no cérebro e na genética. Um exemplo recente é o estudo sobre o exoma de médiuns, liderado pelo professor Dr. Wagner Gattaz, da USP, que teve grande repercussão e foi publicado no Brazilian Journal of Psychiatry, acumulando mais de 40 mil downloads.
O senhor comentou sobre o estudo do exoma de médiuns. Podemos dizer que há algo que não é explicado apenas pela ciência?
Dr. Alexander: Essa é uma boa pergunta. O primeiro ponto importante é esclarecer que nós não trabalhamos com a ideia de “sobrenatural”, que pressupõe algo fora das leis da natureza. O que defendemos é o conceito de naturalismo expandido: a noção de que a natureza não é composta apenas de matéria e que a consciência faz parte dela, embora não seja material.
Nesse sentido, a consciência, ou a mente, seria um elemento natural, mas não redutível à matéria. Esse é um ponto central da nossa abordagem, compartilhado por nós e por outros pesquisadores que trabalham nessa interface.
O que propomos é que explicações puramente materiais — biológicas, psicológicas ou sociais — são fundamentais e ajudam a compreender muitos aspectos dessas experiências, mas não dão conta de explicar o conjunto dos dados observados. Há uma série de achados ligados às experiências espirituais que não se encaixam apenas nesses modelos explicativos.
Esses dados sugerem uma realidade ontológica dessas experiências, isto é, a possibilidade de que a consciência possa existir fora do corpo ou sobreviver à morte. Evidentemente, trata-se de um tema em debate, mas esse debate tem sido conduzido de forma rigorosa por diversos grupos de pesquisa, inclusive no livro que publicamos recentemente pela Springer Nature, que revisa a literatura científica sobre evidências de vida após a morte. Foi a primeira vez que uma grande editora científica lançou uma obra dedicada exclusivamente a esse tema, que já foi traduzida para o alemão, o português e o espanhol.
No Brasil, temos exercido uma liderança importante nesse campo. Em 2025, editamos, pela primeira vez em uma revista científica internacional de psiquiatria, um número especial dedicado à possibilidade de haver mente além do cérebro. Essa edição especial foi publicada na International Review of Psychiatry, a convite do Dr. Dilip Jeste, ex-presidente da World Psychiatric Association, e reuniu pesquisas científicas sobre experiências espirituais e o quanto elas sugerem algo além de uma explicação puramente material.
Como o país se posiciona no cenário da pesquisa em espiritualidade?
Dr. Alexander: O Brasil hoje ocupa a quinta posição no mundo em número de publicações científicas internacionais na área de espiritualidade e saúde. Esse é um dado bastante relevante, especialmente porque, na produção científica global, o país costuma ter uma colocação mais modesta em outros campos. Nessa área específica, porém, estamos entre os cinco que mais publicam. À nossa frente estão países como os Estados Unidos, que lideram a produção científica de modo geral, e a Inglaterra, que também tem uma produção expressiva nesse tema.
Além do volume de pesquisas, há uma liderança institucional clara. Na World Psychiatric Association, por exemplo, atuei como coordenador da seção de espiritualidade, e atualmente o vice-coordenador é um brasileiro, o Dr. Bruno Mosqueiro.
Estamos organizando, em parceria com colegas brasileiros e de outros países, o 6o Global Summit on Spirituality & Mental Health, que será realizado em Boston, nos EUA. Sou co-coordenador da comissão científica, e outros pesquisadores brasileiros também participam ativamente da organização.
Há ainda outras lideranças importantes no país, como o cardiologista Dr. Álvaro Avezum, que atua nessa interface, e o Dr. Giancarlo Lucchetti, que provavelmente é o pesquisador que mais publica no mundo sobre educação médica e espiritualidade. Além disso, a International Association for the Psychology of Religion é atualmente presidida por uma brasileira, a professora Dra. Marta Helena de Freitas, da Universidade Católica de Brasília. Em conjunto, esses elementos mostram que o Brasil tem contribuído de forma significativa e assumido uma posição de liderança nesse campo.
Como foram desenvolvidas as diretrizes brasileiras sobre espiritualidade na prática clínica em saúde mental e qual é sua aplicação hoje? Elas se restringem à psiquiatria?
Dr. Alexander: Essas diretrizes foram desenvolvidas a pedido da ABP, a partir de uma revisão da literatura científica sobre a aplicação prática da espiritualidade no cuidado em saúde mental. Embora o documento tenha sido elaborado especificamente para a psiquiatria, parte de seus princípios se aplica a outras áreas da saúde.
As diretrizes se organizam em dois grandes eixos: o primeiro é a incorporação da dimensão espiritual do paciente à avaliação clínica, e o segundo é o diagnóstico diferencial entre transtornos mentais e experiências espirituais consideradas saudáveis.
No que diz respeito à história espiritual, recomenda-se que o profissional faça perguntas básicas, como se o paciente tem alguma religião ou espiritualidade, qual a importância disso em sua vida, se participa de algum grupo religioso ou espiritual e, principalmente, de que forma acredita que essa dimensão pode ajudá-lo a lidar com seus problemas e com o adoecimento.
Esse componente das diretrizes, a história espiritual, é aplicável praticamente a qualquer profissional de saúde. Não por acaso, a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), por exemplo, já publicou diretrizes de prevenção cardiovascular que incluem recomendações semelhantes sobre a coleta dessas informações, e outras sociedades médicas vêm produzindo orientações na mesma linha.
Além disso, publicamos um artigo de revisão sobre ensaios clínicos controlados que investigaram a integração da espiritualidade na psicoterapia. Esses estudos mostram que a integração pode ser eficaz, desde que seja feita de forma centrada no paciente, respeitando suas crenças, seus valores e seu contexto cultural.
Em nenhum momento cabe ao profissional impor crenças ou práticas. O objetivo é identificar, dentro da vida do paciente, recursos que possam ajudá-lo, como práticas espirituais, apoio comunitário, sentido de vida e propósito, sempre a partir do repertório e das escolhas do paciente.
Como funciona o diagnóstico diferencial entre uma experiência espiritual saudável e um transtorno mental?
Dr. Alexander: Um exemplo clássico é quando a pessoa relata ouvir a voz do Espírito Santo. Dependendo do contexto, isso pode ser uma alucinação psicótica ou uma experiência espiritual legítima. A distinção não é feita a partir de critérios absolutos, mas da avaliação do conjunto clínico.
Em um quadro de mania psicótica, por exemplo, o paciente costuma apresentar um conjunto de sinais e sintomas, como aceleração do discurso, diminuição da necessidade de sono, inquietação, impulsividade, além de euforia ou irritabilidade. Nesse caso, a vivência espiritual aparece inserida em um quadro sindrômico mais amplo.
Já em uma experiência espiritual considerada saudável, esses outros sinais não estão presentes. Avaliamos também se a experiência gera sofrimento ou, ao contrário, promove bem-estar, se é aceita pelo grupo religioso ou cultural do paciente e se ele mantém senso crítico e funcionamento global preservados.
Esses critérios vêm sendo construídos ao longo de décadas de pesquisa, inclusive desde o meu doutorado, concluído há cerca de 20 anos, que teve como foco justamente o desenvolvimento desse diagnóstico diferencial.
Os médicos estão preparados para lidar com essa abordagem na prática clínica?
Dr. Alexander: A maioria dos médicos reconhece a importância da espiritualidade, mas não se sente adequadamente treinada para lidar com o tema, algo que aparece de forma bastante consistente na literatura científica. Em geral, os profissionais sabem que essa dimensão é relevante, mas não tiveram contato com o assunto durante a graduação ou a residência.
Esse cenário, no entanto, vem mudando. Hoje, congressos de psiquiatria, cardiologia, oncologia e de diversas outras especialidades praticamente sempre incluem mesas, cursos ou simpósios dedicados à área de espiritualidade e saúde.
Além disso, há uma oferta crescente de treinamentos online, lives, cursos de pós-graduação e uma inclusão progressiva do tema nos currículos das faculdades e das residências médicas. O desafio agora é formar os novos profissionais já com esse conhecimento e, ao mesmo tempo, atualizar aqueles que já estão em atividade.
Onde estão hoje os principais riscos dessa incorporação da espiritualidade na prática médica? O que definitivamente não pode acontecer no consultório?
Dr. Alexander: Existem dois riscos principais. O primeiro é simplesmente não abordar um tema que é altamente prevalente na população e que tem impacto direto na saúde. Ignorar a espiritualidade do paciente pode ser um problema clínico relevante.
O segundo risco é abordar esse tema de forma inadequada. Isso inclui práticas como o proselitismo religioso, a tentativa de converter o paciente ou, no extremo oposto, a desqualificação da espiritualidade, tratando-a de maneira patologizante, por exemplo, reduzindo-a a um suposto mecanismo de defesa imaturo.
A função da medicina é cuidar da saúde com base em evidências científicas e princípios éticos. Em nenhuma circunstância cabe ao profissional impor crenças pessoais ou prometer cura espiritual no contexto do atendimento clínico.
Depois de anos de pesquisa e atuação clínica, o debate chega às comissões das sociedades médicas e ao CFM. O que mudou para que esse tema deixasse o campo individual e passasse a exigir uma resposta institucional?
Dr. Alexander: Um ponto central é que o Brasil se tornou pioneiro também do ponto de vista institucional. Hoje, pelo que temos notícia, ao menos oito associações brasileiras de especialidade médica criaram comissões dedicadas à espiritualidade, algo que eu não vejo em nenhum outro país. Há comissões na Sociedade Brasileira de Pediatria, na ABP, na SBC, na reumatologia, na cirurgia oncológica, na medicina de família e comunidade e na Associação Brasileira de Ensino Médico, além de algumas iniciativas estaduais.
Esse movimento fez com que se reconhecesse, dentro do CFM, a necessidade de compreender o tema de forma mais aprofundada e de orientar os médicos com base em evidências científicas. Isso é especialmente relevante porque, como já comentamos, muitos profissionais não foram treinados para lidar com a espiritualidade na prática clínica.
A função do CFM é justamente orientar a boa prática médica. Foi nesse contexto que surgiu a necessidade de criar uma comissão específica para tratar do tema de forma ética, técnica e baseada em evidências.
Como surgiu a Comissão de Saúde e Espiritualidade do CFM e quem participou dessa construção inicial?
Dr. Alexander: A criação da comissão foi uma iniciativa da Dra. Rosylane Rocha, vice-presidente do CFM. Para compor o grupo, ela buscou reunir profissionais que já ocupavam posições de liderança nessa interface entre espiritualidade e medicina, especialmente dentro das associações médicas nacionais.
Os trabalhos começaram no início de 2025 e, desde então, o grupo passou a se reunir regularmente. O primeiro passo foi divulgar o conhecimento científico já existente sobre o tema. Nesse período, foi realizado um webinar e um evento presencial.
Esses materiais estão disponíveis no site e no canal do YouTube do CFM. Inclusive, os vídeos figuram entre os mais assistidos do canal, o que indica o interesse significativo da classe médica por esse debate.
Qual é o objetivo prático da comissão do CFM? O que deve sair desse grupo para a prática médica?
Dr. Alexander: A proposta é avançar de forma progressiva. O primeiro passo é divulgar o que já existe de evidência científica sobre espiritualidade e saúde. O segundo é produzir diretrizes que orientem os médicos sobre como abordar esse tema de maneira ética, técnica e baseada em evidências.
Além disso, um dos objetivos centrais da comissão é estudar a própria prática médica no Brasil: compreender como os médicos vêm lidando com a espiritualidade no consultório, quais são as principais dificuldades, os receios e os avanços já observados.
Esse diagnóstico é fundamental para que as futuras diretrizes não sejam apenas teóricas, mas realmente aplicáveis à prática cotidiana e às diferentes realidades da assistência médica.
Essa movimentação institucional já se traduz de alguma forma na prática clínica? Há perspectiva de novas pesquisas envolvendo o CFM e o seu grupo de pesquisa?
Dr. Alexander: Sim, esse movimento já começa a se refletir na prática clínica. Os médicos têm abordado o tema da espiritualidade com mais frequência e, de modo geral, de forma mais adequada do que no passado. Há uma consciência maior sobre a relevância dessa dimensão e uma abertura crescente para escutar o paciente nesse aspecto.
Ainda assim, há muito a avançar, tanto em termos de formação quanto de produção científica. Nesse sentido, existe, sim, a perspectiva de novas pesquisas em parceria com o CFM. Eu faço parte da comissão, e a ideia é desenvolver estudos mais abrangentes, capazes de mapear dúvidas, limites e necessidades de formação.
Hoje, o país não é apenas um produtor relevante de pesquisa nessa área, mas também está buscando transformar esse conhecimento em orientação prática e regulatória para os médicos, algo que poucos sistemas médicos no mundo tentaram fazer de forma tão estruturada.
Daniela Barros é jornalista, com pós-graduação lato sensu em jornalismo social pela PUC-SP e aluna especial no Departamento de Medicina Social da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP). Escreve sobre medicina há 23 anos, colaborando com diversas publicações direcionadas ao tema.

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