quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Não jogue pedra na Geni

Em 1978, Chico Buarque de Holanda compunha Geni e o Zepelim. O artista, um dos mais renomados da MPB, destacou-se por enfrentar a repressão do regime militar e condenar a censura da época nas composições que criticavam o sistema. A canção é tão atual como em 1978, pois trata da objetificação da mulher, uso do corpo feminino, desrespeito e condenação pela sociedade das mulheres “toleradas”. Este breve comentário da música é apenas para contextualizar o que segue abaixo.

Abordando esta canção na realidade sobralense, o Zepelim seria representado pela ingratidão, pela indiferença ou até mesmo pela mera condição da ignorância. E a Geni? Seriam as famosas madames da cidade, como a  Chica Fulepão? e as já falecidas Dozinha e a Tia Bené? Não! A Geni é nonagenária. Está ativa, atuante, e embora aviltada, desrespeitada, maculada, ignorada, sofrida, continua a cumprir a sua missão.

A Geni sobralense é resiliente, nasceu sob   o signo da caridade e em seus 95 anos de existência acolheu, tratou e curou. Em 2019, segundo seu Relatório Social, realizou mais de 105 mil atendimentos ambulatoriais e 21.692 cirurgias nas áreas da Obstetrícia, Ortopedia/Traumatologia, Cirurgia Plástica, Cirurgia Geral, Neurocirurgia e Outras Especialidades, destas 19.479 de URGÊNCIA. Todas pela SUS.

A nossa nonagenária Geni, humilhada e maltratada “[...]foi a obra grandiosa de Dom José Tupinambá da Frota, iniciada a 25 de agosto de 1912, tendo inauguração em 24 de maio de 1925, proporcionando qualidade de vida para o povo sobralense”. (ARAÚJO, 2005). Com seus 95 anos, sabe-se importante e imprescindível.

Esta velha senhora é referência na atenção terciária à saúde e acolhe em seus leitos  mais de 1,7 milhão de pessoas e pode ser considerada o maior patrimônio, não só dos sobralenses, mas de toda população da zona Norte do Estado do Ceará. Resistente ao tempo e superando os mais diversos desafios, impostos pelo financiamento insuficiente que é destinado à saúde, pelo Governo Federal, a Geni continua de pé.

Desde 2007, a nossa Geni é reconhecida pelo Ministério da Educação (MEC) e Pelo Ministério da Saúde (MS) como instituição de ensino, a primeira do interior do Norte e Nordeste, na formação prática de médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, psicólogos, nutricionistas, farmacêuticos, assistentes sociais, entre outras categorias da saúde. Atualmente, sob um modelo administrativo de gestão por competências, vem qualificando e melhorando seus processos assistenciais, renovando a sua missão: “Prestar assistência e formação em saúde com alto padrão de qualidade, humanização, segurança e sustentabilidade”

Voltemos à Geni e o Zepelim. Já passou da hora da sociedade sobralense valorizar esta nonagenária senhora, entender que o esforço para mantê-la é uma luta titânica e algumas saídas são as únicas que lhes restam para que continue respirando. Já passou da hora de se livrar do ranço e conhecer as boas práticas administrativas e operacionais que vêm sendo implantadas nos últimos dois anos. Está na hora de respeitar a Geni que sempre acolhe, trata, cura e salva. Recolham as pedras que nela são jogadas por desconhecimento ou apenas por maldade e intolerância. Enfim, zele, cuide, respeite e valorize. Não jogue pedra na Geni!

Vanderley Moreira (Jornalista Profissional - CE01641-JP)

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