A pesquisa indica, entre outros aspectos, que os fumantes
brasileiros estão altamente motivados para deixarem de fumar e apoiam novas
ações governamentais de combate ao tabagismo
Nos próximos seis meses, 49% dos fumantes do país planejam
deixar o cigarro, o maior índice registrado entre todos os países que compõem o
Projeto ITC Brasil – pesquisa que mede o impacto psicossocial e comportamental
de políticas para o controle do tabaco. Os resultados foram divulgados hoje
(29) durante o Congresso Instituto Nacional do Câncer (Inca) 80 anos, realizado
no Rio de Janeiro.
Os dados do Projeto Internacional de Avaliação das Políticas
de Controle do Tabaco (Projeto ITC Brasil) englobam informações relativas a 24
países. Entre os principais motivos apontados pelos fumantes para deixar o
hábito estão a preocupação com a própria saúde, com os danos que possam vir a
causar em outras pessoas pelo tabagismo passivo e com a possibilidade de dar
mau exemplo a crianças. A pesquisa indica, entre outros aspectos, que os
fumantes brasileiros estão altamente motivados para deixarem de fumar e apoiam
novas ações governamentais de combate ao tabagismo.
Para a diretora-geral do Inca, Ana Cristina Pinho, os dados
significam um “pedido de socorro” por parte dos fumantes do país, que querem
deixar o vício mas não conseguem. “Os números mostram com muita clareza o que
significa a dependência física e psíquica de uma droga. O fumante tem a
consciência de que o tabaco é danoso à sua saúde, mas não consegue se libertar
da dependência”.
Para a diretora-geral do instituto, “o fumante tem a
consciência de que fumar é nocivo à sua saúde
e à de sua família, e todo o impacto social envolvido. Os números
constituem sim em um pedido de socorro por parte dos que querem deixar o
vício”, enfatiza.
De acordo com a pesquisa, os resultados relativos aos que
planejam deixar o vício nos próximos seis meses no Brasil indicam “um índice bastante elevado,
principalmente se comparado ao de países desenvolvidos com programas
estruturados de controle ao tabaco como Estados Unidos (índice de 37%), França
(34%), Inglaterra (33%) e Alemanha (apenas 10%)”.
Além de registrar o maior percentual de entrevistados que
planejam deixar o cigarro nos próximos seis meses, o estudo revela que fumantes
e não fumantes apoiam a criação de novas ações governamentais para o combate ao
tabagismo.
A secretária-executiva da Comissão Nacional para
Implementação da Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco (CONICQ), Tânia
Cavalcante, destaca que a mudança de visão da sociedade brasileira em relação
ao cigarro é fruto do trabalho de diversos atores ao longo dos anos. “Essa
mudança na postura em relação ao hábito de fumar, que era bem visto e
amplamente estimulado no Brasil entre as décadas de 70 a 90, é fruto de um
longo trabalho desenvolvido pelo Inca e pelo Ministério da Saúde, em parceria
com secretarias de saúde e a sociedade civil", aponta.
Proibição e regulamentação
Outra constatação da pesquisa é a de que existe um forte
apoio até mesmo para a proibição total da comercialização dos produtos de
tabaco. O Projeto ITC perguntou a todos os 1.358 entrevistados, entre setembro
de 2016 e março de 2017, se eles apoiam ou se opõem a uma proibição total de
produtos de tabaco nos próximos 10 anos caso o governo forneça tratamento para ajudar
fumantes a deixarem o vício. Os resultados mostram que 68% dos fumantes e 77%
dos não fumantes pesquisados “apoiam” ou “apoiam fortemente” essa proibição.
Vera Luiza da Costa e Silva, chefe do secretariado da
Convenção do Controle de Tabaco da Organização Mundial de Saúde (OMS),
ressaltou durante o congresso que a proibição do tabaco não está em pauta.
“Os dados do ITC não propõem essa proibição, eles
simplesmente utilizam este indicador como medida da não aceitação social do
produto por parte do fumante e do não fumante. E quando você vê que uma parte
grande da população acha até que proibir seria uma solução, é porque a situação
está chegando a um ponto em que o produto não está sendo bem aceito”, disse.
Para ela, os resultados da pesquisa são um estímulo para se
discutir como avançar na regulamentação do uso de outras substâncias, como o
álcool e alguns produtos alimentícios. "[Pensar] em como se avançar dentro
da mesma lógica de regulamentar. Não é proibir, é regulamentar. E ter um olhar,
dentro desta regulamentação, voltado principalmente para os adolescentes e para
a população de baixa renda”, disse.
A importância da regulamentação também foi defendida pela
diretora-geral do Inca, Ana Cristina Pinho. Para ela, ao contrário das drogas
ilícitas, no caso do cigarro o que se pretende é reduzir o consumo via
estrangulamento do acesso ao produto.
“É o caso de dificultar o consumo via estrangulamento,
dificultando o início do hábito, daí a importância de uma política educativa
tendo como meta dificultar o vício do hábito de fumar: e aí o público-alvo é a
criança e o adolescente, porque 90% dos fumantes adquirem o hábito nesta fase
da vida”, destaca.
No entendimento de Ana Cristina, “é necessário primeiro
desmistificar, tirar o glamour do hábito pelo tabaco". Esse trabalho passa
por medidas relacionadas à indústria tabagista, como a padronização das
embalagens e a questão dos aditivos que adicionam sabores aos cigarros. No
entanto, ações desse tipo envolvem a formulação de legislação específica.
“Já existem muitos projetos que contemplam algumas dessas
medidas, mas o lobby no Congresso Nacional é muito forte por conta de
parlamentares ligados diretamente à indústria tabagista. E eles [projetos]
estão lá parados e são de difícil aprovação. Mas é um desafio que precisa ser
encardo porque o custo para o país é muito alto”, argumenta.
Agência Brasil

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